Por quê visitar o Bom Retiro?
Redação: André Prado
Pesquisa: Beatriz Acosta, Letícia Barros, Emily Thainá
Hoje conhecido por ser um bairro essencialmente comercial e ao lado do Brás um importante polo têxtil da cidade, o Bom Retiro guarda consigo uma história intimamente ligada à indústria cafeeira e por consequência ao desenvolvimento de São Paulo.
De acordo com algumas anotações do Arquivo Histórico da cidade, a origem do bairro remonta por volta do início do século XIX, quando o local inicialmente foi aos poucos sendo ocupado por construções da parte mais abastada financeiramente da cidade.
Privilegiada pela natureza que circundava os lotes entre os rios Tamanduateí e Tietê, a região nessa época contava com diversos sítios e chácaras que serviam como um tipo de retiro nos finais de semana para as famílias ricas de São Paulo, chegando até a sediar a casa de veraneio da família real portuguesa, e no final do século com o seu loteamento e arruamento (especula-se) que o bairro ganhou nome de Bom Retiro graças à uma chácara com esse nome.
...e seu passado
Juntamente com a criação do Jardim público da Luz em 1838, o Bom Retiro se tornou o bairro multicultural que conhecemos hoje devido a parte do terreno do antigo Jardim Botânico (da Luz) ter sido cedida a Companhia Inglesa para realização da construção da São Paulo Railway (ferrovia Santos-Jundiaí), que posteriormente se tornaria a Estação da Luz, sendo reformada várias vezes devido à necessidade de sua ampliação constante.
Símbolo da indústria cafeeira paulista e da prosperidade da política café-com-leite que imperou no início do século XX no Brasil, o seu auge se deu por décadas sendo o referencial urbano e arquitetônico da cidade, com a sua torre dominando a paisagem urbana da parte central paulistana ao lado do prédio da Pinacoteca e da estátua de Ramos de Azevedo (arquiteto responsável por vários projetos de edifícios naquele período) como o ponto referencial de quem morava na cidade - estátua essa, que na década de 1970 teve que ser removida devido às obras do metrô, alterando a paisagem original do local.
Devido a centralidade da Estação da Luz na região, o local que contava na época com olarias, casarões e terrenos baldios, teve aos poucos a sua aparência modificada com a chegada ao longo das décadas de milhares de imigrantes italianos e portugueses, árabes e judeus refugiados da II Guerra, libaneses, turcos, gregos, e a partir dos anos 60, coreanos, bolivianos e migrantes nordestinos, alterando aos poucos a constituição do bairro antes residencial.
Todos em comum, viam no Bom Retiro as oportunidades de moradia e trabalho que muitas vezes não encontravam em seus países e regiões natais, fazendo jus assim ao nome do bairro que na primeira metade do século teve o seu auge como referência ao cunho proletário da cidade, construindo aos poucos à sua fama atacadista com a construção de centros comerciais, bazares e galerias tornando a região o lugar aonde “pode se comprar de tudo”.
O Bom Retiro hoje
Com a Estação da Luz continuando a ser um dos grandes expoentes históricos da história da cidade ao lado do Jardim da Luz e da Pinacoteca, foi principalmente após a construção do Museu da Língua Portuguesa em parte de suas instalações nos anos 2000, que definitivamente a região formou provavelmente a tríplice cultural mais conhecida do bairro e talvez de São Paulo inteira, constituída pelos principais patrimônios arquitetônicos da sua história.
Mesmo apesar da gradual degradação que a região Luz/Bom Retiro sofreu a partir dos anos 50 e ainda persiste na região central, o legado é enorme na “marca” de São Paulo como a “cidade do mundo”, em outras palavras, uma metrópole lugar aonde encontramos diversas tribos e pessoas de diversas culturas e línguas. Portanto, essa convivência harmônica entre diversos povos ao longo de sua história ligada com o desenvolvimento do próprio país, proporcionou ao Bom Retiro características que realmente não se encontra facilmente em outras regiões da cidade.
E é atualmente que, no seu caráter comercial em que era e é possível se deparar com um bairro aonde se “vende de tudo”; hoje pode-se concluir que no Bom Retiro é também um bairro aonde “se encontra de tudo”.
Principais pontos culturais
A Pina, como hoje é conhecida, é um dos museus de arte mais importantes do Brasil originalmente projetado por Ramos de Azevedo e Domiziano Rossi na passagem dos séculos XIX e XX. O prédio inicialmente dedicado à sede do Liceu de Artes e Ofícios (instituição particular que disponibiliza cursos de Ensino Médio e Técnico, hoje sediado na Rua da Cantareira) ocupa parte do Jardim da Luz e foi regulamentado como museu público estadual em 1911.
Porém, foi após a reforma conduzida por Paulo Mendes da Rocha na década de 90 que a Pinacoteca se tornou uma das mais dinâmicas instituições culturais do país, ao se integrar ao circuito internacional de exposições promovendo eventos culturais diversos e mantendo uma ativa produção bibliográfica.
Atualmente com um dos maiores e mais representativos acervos de arte brasileira com mais de dez mil peças abrangendo majoritariamente a história da pintura brasileira dos séculos XIX e XXl, a Pina também administra o espaço conhecido como Estação Pinacoteca, instalada no antigo edifício do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, famoso na época da Ditadura Militar e extinto em 1983) no Bom Retiro, onde mantém exposições temporárias de arte contemporânea, a biblioteca Walter Wey e o Centro de Documentação e Memória da instituição.
Museu da Língua Portuguesa – Praça da Língua s/n
Inaugurado nos anos 2000, o museu foi criado com o objetivo de alcançar a média da população brasileira de diversas classes sociais do país criando um espaço vivo sobre a língua portuguesa, onde seja possível ter uma ideia mais clara e precisa sobre a língua, causando surpresa e reflexão nos visitantes que agora tem acesso a novos conhecimentos e curiosidades de uma forma intensa, interativa e prazerosa sobre a sua história e as suas origens.
Em dezembro de 2015 o museu foi atingido por um incêndio destruindo dois andares da sua estrutura, porém não afetando seu acervo digitalizado, mas permanecendo fechado à visitação para reformas desde então (com previsão para reabrir em 2019).
Sendo uma das principais instituições brasileiras voltadas ao estudo, conservação e exposição de objetos relacionados à arte sacra, o Museu era originalmente um convento de recolhimento de monjas enclausuradas fundado em 1774 por iniciativa de Frei Galvão – onde estão seus restos mortais. O mosteiro é a única edificação com elementos originais remanescente da época colonial em São Paulo e foi tombado como patrimônio arquitetônico de interesse nacional em 1943.
Transformado em museu em 1970, abriga um dos mais importantes acervos de arte sacra do Brasil, contando com peças acumuladas pela Mitra Arquiodicesana ao longo do século XX com peças provenientes de antigas igrejas de todo o país produzidas a partir do século XVI de artistas exponenciais da era barroca como Aleijadinho.
SESC Bom Retiro – Alameda Nothmann, 185
Com suas atividades iniciadas em 2011, o SESC conta com diversas atrações dedicadas aos moradores do bairro em um edifício composto por 2 subsolos e 3 pavimentos numa área total de 13 mil metros quadrados contando com:
- Três consultórios odontológicos
- Área de exposições
- Biblioteca
- Bicicletário
- Brinquedoteca
- Ginásio poliesportivo
- Piscina coberta e aquecida
- Teatro.
Inaugurada em 1872 pela Estrada de Ferro Sorocabana com a função principal de transporte de sacas de café vindos do sudoeste e oeste Paulista e norte do Paraná para capital, a conclusão total das suas obras nunca se concretizou devido a Grande Depressão dos de 29. Seu projeto premiado pela sua inspiração nos terminais de Nova York com estilo da França monárquica, foi concluída parcialmente somente em 1938, quando São Paulo já sofria do declínio de sua cultura cafeeira e do consequente declínio das suas ferrovias.
Sofrendo após décadas de abandono gradual e degradação, a estação iniciou sua remodelação no governo de Mario Covas em 1995 a pedido do regente da Orquestra Sinfônica de SP na época, John Neshling, com o intuito de que o local fosse convertido em uma sala de concertos, uma vez que o Brasil sofria da carência de não contar com um espaço ideal para apresentações desse tipo e principalmente porque a OSESP nem possiua um centro permanente.
Após a conclusão de sua reforma, a Estação Júlio Prestes se tornou também a Sala São Paulo, um local ideal para apresentações do gênero que une a música clássica e modernidade a sua arquitetura já imponente. Concebida com os mais altos padrões internacionais de acústica e considerada uma das dez melhores casas do mundo, foi tombada em 1999 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (CONDEPHAAT).



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