Vamos falar sobre Comunicação Comunitária? Entrevista com Mariana Mata do coletivo FemiSistahs

Redação e transcrição: André Prado
Entrevista: Beatriz Acosta



Entre tantos desafios do nosso país diante a busca permanente de um objetivo de construir uma sociedade mais justa e consciente, é de fundamental importância entendermos a importância do respeito às minorias. Mas vamos falar do feminismo, das mulheres… aquelas que prestam uma jornada dupla de trabalho, dedicando-se no escritório e dedicando-se aos filhos, marido e a harmonia no lar.

Um dos desafios atuais mais pertinentes da sociedade é a luta pelos direitos iguais, que encontra indiferença e preconceitos por grande parte dos homens e, até das mulheres, que graças a uma sociedade condicionada a um pensamento mais tradicional, acabam reproduzindo e validando as atitudes que elas próprias sofrem.

Como sabiamente dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche: “um povo que não conhece a sua história, está fadado a repeti-la”. Portanto para ter empatia com estes movimentos, é necessário à nossa compreensão sobre as desigualdades que as mulheres sofreram ao longo da história e ainda sofrem em diversos aspectos que, vão desde o estupro físico e moral, o assédio, a violência doméstica (que muitas vezes é tratada como piada por parte do público masculino), a desigualdade salarial, e até simplesmente o silêncio de quem presencia.

Por muitas décadas a mulher brasileira ficou totalmente desamparada, porém, foi com muita luta que em agosto de 2006 criou-se a lei Maria da Penha, validando mecanismos jurídicos para coibir a violência doméstica contra a mulher. Mas sobretudo, mais do que apenas uma lei, ela se tornou um instrumento que forçou a sociedade brasileira a olhar para a questão da violência doméstica muito além das portas das casas.


10 dados alarmantes:
  • Uma em cada três brasileiras com 16 anos ou mais foi espancada, xingada, ameaçada, agarrada, perseguida, esfaqueada, empurrada ou chutada nos últimos 12 meses;
  • 40 % das mulheres acima de 16 anos sofreram algum tipo de assédio, o que inclui receber comentários desrespeitosos nas ruas, sofrer assédio físico em transporte público e ou ser beijada ou agarrada sem consentimento;
  • Cerca de 66% dos brasileiros presenciaram alguma agressão física ou verbal em 2016;
  • Ainda em 2016, houve um aumento de 123% no número de relatos de violências sexuais em relação ao primeiro semestre de 2015;
  • Os atendimentos relativos à violência sexual tiveram um aumento de 87,93% no Carnaval de 2017, quando comparamos com o Carnaval do ano passado;
  • A mortalidade de mulheres negras teve um aumento de 22%;
  • Apenas 36% dos crimes contra mulheres no período entre março de 2015 e dezembro de 2016, classificaram a violência contra a mulher como violência de gênero;
  • Quatro entre dez casos de violência doméstica acontece à noite, quando as delegacias especializadas se encontram fechadas;
  • Metade das mulheres com medidas proletivas sofre nova agressão.
*dados Datafolha no período de janeiro a dezembro de 2016

Pela luta permanente pelos Direitos das Mulheres o coletivo FemiSistahs (junção das palavras “feminino” e “sistahs” (gíria que se derivou do inglês e é usada nas periferias para designar “irmãs”), é formado sobretudo por Mulheres. Mães, Filhas e Irmãs.

Mariana Mata, 34, juntamente com Gabriela Maurelli, 29, e Camilla Briz, 28, amigas de longa data, que organizam atividades independentes em uma região periférica ainda tão carente de cultura e informação, realizando uma pequena e importante parte pela busca de uma sociedade mais justa, dividindo experiências e crescendo individuais e coletivamente ao realizar a partir do incentivo do programa governamental VAI (Programa de Valorização a Iniciativas Culturais) em 2016, uma série de atividades culturais, artísticas e sociais na região de Itaquera voltadas à mulher da periferia, visando o seu empoderamento, o reconhecimento de seus reais valores e protagonismos ainda negados na sociedade.

Além de revelar detalhes das principais ações do coletivo, a idealizadora Mariana Mata gentilmente nos contou um pouco de seu passado e sobre as causas defendidas pelo coletivo, nos ajudando a esclarecer a existência do Coletivo FemiSistahs.

K-maleão Criativo: Mariana, como se deu a formação e a ideia do projeto FemiSistahs?

Mariana Mata: Bom, eu sempre fui muito envolvida com causas e projetos sociais aqui na COHAB II durante toda a minha vida, desde participando de grêmio estudantil à atividades culturais realizadas com amigas e amigos de maneira totalmente independente em eventos como o Reggae na Rua, e o Bazar Roopa, além de participar como público da programação realizada por pessoas das nossas, que passaram a ser contempladas com o incentivo no decorrer dos anos nos incentivando a nos informar e a começar escrever para esse tipo de edital.

Minha motivação pro FemiSistahs foram as experiências machistas que sofri e posso presenciar na sociedade, entre homens e mulheres, que reproduzem e naturalizam comportamentos opressores. E lá pelo final de 2015 fiz o convite a algumas mulheres e duas queridas amigas, a Gabriela e a Camilla – essa bem inesperada até por termos um menor de tempo de amizade  – que toparam na hora e compraram de verdade o meu sonho!

KC: Muito legal, e quais as ações que o coletivo propunha?

MM:  Diversas. Nesse período de 2016/17 foram três ações que marcaram. Vou falar um pouco delas:

Fecha com as Sistahs

A primeira e extremamente significante e gratificante pra nós e a que nos deu bastante visibilidade foi o “Fecha Com as Sistahs”. Um encontro com oficina, workshop, uma vivência. Uma roda de conversa sempre com um tema pré-definido e algumas intervenções artísticas, sempre tendo as mulheres como protagonistas.

Sempre pensamos as atividades voltadas especificamente para as mulheres, mas sobretudo para as mulheres da periferia, da Zona Leste. Pois todas nós temos recortes sociais, étnicos, raciais que precisam serem evidenciados quando a gente fala de feminismo e sobre o alcance de todas as mulheres.

Nem todas as mulheres feministas são brancas, de classe média-alta e que moram no centro, vivem essas experiências que nós vivemos aqui tendo menores oportunidades e privilégios entende? Eu sou branca, a Gabriela é branca, a Camila é branca, nós temos a pele clara. Porém, a Camila, por exemplo, é filha de negra; a Gabriela se declara como parda; eu sou neta de bolivianos e filha de amazonense, somos todas periféricas... A gente precisa levar essa mensagem, a informação, aumentar a discussão a cerca das questões de gênero, com base nas nossas vivências do cotidiano, tratando as mulheres adequadamente com suas peculiaridades, como aquelas com filhos; e a gente viu muito esse caso na prática tanto que posteriormente acabamos incluindo um espaço também para as crianças, com o intuito das mães poderem desfrutar do projeto com toda a tranquilidade. Então era basicamente isso

A ação Gestar Pleno

Um outro “objeto”, como geralmente são chamadas as ações propostas, foi a ação Gestar Pleno.
Essa ação consistia de palestras nas UBSs (Unidade Básica de Saúde) da região atendendo as gestantes que realizavam o pré-natal nessas unidades. Ali, levávamos uma doula, a Amanda Mesquita, que falava sobre parto humanizado, técnicas pra alívio da dor, etapas do parto e sobre a violência obstétrica que muitas vezes nem temos a noção quando passamos por esse momento. Sem contar que, muitas pessoas não conhecem o trabalho de uma doula e até não sabem o que essa palavra significa, principalmente as mulheres da periferia.

N.E.: A doula realiza o parto humanizado, acompanhando a mulher durante toda sua gestação proporcionando um suporte físico e emocional, antes, durante e após o parto. Resumindo, ela é aquela pessoa que representa a experiência da mulher que “entende a gestação”, algo que se perdeu com a modernidade aonde as famílias acabam ficando cada vez menores. Então isso aos poucos foi passando para a esfera médica e há diversas pesquisas atestando os benefícios da doula como um complemento às enfermeiras, obstetras e médicos que não tem a disponibilidade de realizar tal trabalho.

Enfim, o objetivo era passarmos a ideia de que a mulher era protagonista desse momento e não a equipe médica pra quem a gente acaba entregando toda a confiança e responsabilidade durante os nove meses. Então passar essa informação é possibilitar a elas uma opção, ela sabendo o que é, vai decidir o que é melhor pra ela, de acordo com as suas experiências e seus pensamentos.
Essas atividades foram desenvolvidas nesses postos de saúde e realizamos também uma edição na casa de cultura Raul Seixas, em Itaquera, pra gestantes da nossa comunidade e às todas as interessadas e acompanhantes. Tivemos lá também uma roda de conversa com a presença da Amanda, compartilhando a importância do parto humanizado fora do âmbito da televisão, onde vemos aquelas mulheres tendo o bebê na piscina, e mostrar que isso é possível também para nós mulheres periféricas, pois temos casas de parto filiadas ao SUS e recentemente, antes de entregar o mandato, o até então prefeito Fernando Haddad autorizou a presença das doulas no momento do parto. Foi bem legal.

A ação EducaSistahs

Já aqui nessa o público-alvo eram as alunas e alunos do primeiro ano do ensino médio e do nono do fundamental.

Então, pra essas turmas, falamos sobre o histórico do feminismo, a diferença de feminismo (N.E: movimento social) pra femismo (N.E.: sinônimo de machismo, ideologia da superioridade da mulher sobre o homem), o que é sexo, o que é gênero. No geral, damos alguns conceitos do que é machismo, as suas ações e o quanto nós reproduzimos isso sem perceber o quão termos e piadas podem ser ofensivas às mulheres.
Falamos também sobre a violência da mulher além do espectro físico que a gente entende como evidente, também o assédio psicológico, o patrimonial, moral… Da importância da mulher na política, da importância da Lei Maria da Penha, os papeis de gênero e os padrões estereotipados na mídia e na publicidade, como nas campanhas de cerveja e de exemplos positivos como nas propagandas da Dove e recentemente da Mattel que fez Barbies baixas, gordas, negras… Então com essas pequenas e importantes ações, percebemos bem aos poucos um movimento global pra desconstruir padrões de beleza femininos, e isto passa pela conscientização da nova geração sobre padrões de beleza e principalmente sobre os papéis de gênero atribuídos ao feminino e ao masculino.


KC: E você continua com o coletivo? Você tem projetos pra realização de outros movimentos em relação à defesa do feminismo? Ações?

MM: Sobre isso, a duração do VAI é de até um ano. Ainda falando do EducaSistahs, muitas escolas acabaram recusando nosso projeto inicialmente, contudo, elas acabaram resolvendo de última hora, umas seis ou oito de uma vez e todas na primeira semana de março aproveitando o dia internacional da mulher. Então continuamos com o “objeto” até março desse ano e prestamos as contas finais nessa época também.

Só que continuamos na ativa mesmo não tendo sido contempladas no VAI em 2017. Por exemplo, no dia 1º de abril, promovemos uma roda de conversa numa ocupação cultural chamada Coragem, da qual fiz parte em fevereiro de 2016 antes do FemiSistahs ter a aprovação do VAI. A ideia era aproveitar essa data do dia da mentira pra promover um bate-papo sobre a mentira difundida das profissões estigmatizadas como estritamente masculinas, convidando várias mulheres empreendedoras e um coletivo chamado Mana - Mulher Conserta pra Mulher, que realizam serviços de construção civil, elétrica e hidráulica para outras mulheres. Fizemos também mais uma edição do Bazar Roopa na Lab Casa Cultural, gerido também pelo coletivo Mulheres Maravilhosas, parceiras de caminhada no ativismo periférico.

Seguimos também ativas em pesquisas e formações que nos possibilitem mais experiência e vivências práticas dentro da nossa temática de Luta, além de adquirir mais competência também em processos voltados a gestão de projetos culturais. Neste sentido no mês de agosto eu mandei um projeto para outro edital, chamado Feminismos Contemporâneos, com sua primeira edição em 2017, patrocínio da ONU Mulheres, do instituto Elas do Rio de Janeiro e de mais duas ONGs internacionais, tendo a ideia de também promover encontros com o formato do Fecha [com as Sistahs] e outras ações como uma formação popular feminista.  Há também uma outra proposta nossa em análise para desenvolvermos nossa programação em parceria com outro grande coletivo de Mulheres, o Mal Amadas.

Neste caso, o processo corre através de uma Emenda Parlamentar, proposta pelo gabinete da vereadora Juliana Cardoso, que explicando bem brevemente, é uma verba disponibilizado aos vereadores para que esses possam realizar benfeitorias nos bairros, indo desde a instalação de postes de luz à melhorias de pequenas praças. Daí esse projeto está sendo avaliado na Secretaria Municipal de Cultura, e se aprovado, terá programação nos meses de Novembro, Dezembro e Janeiro, nas Casas de Cultura e Bibliotecas Municipais da zona leste. Estamos na torcida!

KC: Mariana, muito obrigado pela entrevista e por ter dividido conosco grande parte de sua experiência de vida e do FemiSistahs nessa entrevista tanto na postagem como em formato de podcast. Estamos também na torcida!

MM: Eu que agradeço pelo espaço de vocês!

Encontre o FemiSistahs: https://www.facebook.com/FemiSistahs/
Encontre a Mariana Mata: https://pt-br.facebook.com/public/Mariana-Mata
“O machismo é a vontade de ser superior, o feminismo é a busca da igualdade”.
– Mario Sérgio Cortella

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