As diferenças entre a comunicação das marcas Omo e Ariel e como elas abordam o lugar da mulher na sociedade

Redação: André Prado e Vanessa Vignoli
Pesquisa: Vitor Luiz, Letícia Barros, Sebastião Fernando, Luis Gustavo



Resumo

A proposta deste artigo é avaliar a comunicação dos produtos de limpeza, no caso das duas principais marcas de sabão em pó, Omo e Ariel, traçando uma linha do tempo convergente que ajuda a exemplificar a evolução da mulher na sociedade, e em como as duas marcas se comunicam de formas diferentes com o consumidor e com a mulher, também compostas de um principal tema que é o tempo que devemos ter com a família.

Palavras-chave: Publicidade; machismo; sociedade; comportamento; estereótipo; sabão-em-pó; limpeza

Introdução

De acordo com o Dicio (Dicionário Online de Português): estereótipo é um substantivo masculino que é um padrão estabelecido pelo senso comum, significando algo desprovido de originalidade e repleto de clichês, representando a total ausência de conhecimento sobre o assunto em questão sobre algo ou alguém.

Geralmente, utilizamos os estereótipos de maneira inconsciente, já que são conceitos relacionados com a história, geografia, culturas e crenças de diversas sociedades. No entanto, essas apreciações podem ser errôneas e muitas vezes de teor depreciativo e preconceituoso. 
(Toda Matéria, 2018 <https://www.todamateria.com.br/estereotipo/>)
Da mulher dona-de-casa provedora do lar e mãe zelosa e dedicada que, exemplificando, observamos nas propagandas das marcas Bombril e da Arno nos anos 50 personificando o modelo de esposa perfeita que “pilotava fogão”, até os tempos atuais, em que a Omo e Ariel buscam lidar com o público feminino de uma forma respeitosa e sem entrelinhas, muita coisa mudou.

As décadas passaram e as ideologias do mundo mudaram e mudam cada vez mais depressa, porém, a hegemonia masculina cristalizada através das décadas ainda se faz presente, com ideias e conceitos apenas sendo reavaliados e ressignificados para o público-alvo consumidor, e em diversos casos, ainda retratando veladamente a mulher como aquela que deve ser conquistada, não só escravizada por padrões de beleza, mas ainda sendo aquela tão somente responsável pela casa e pelos filhos.

No âmbito publicitário direcionado especificamente ao gênero feminino, é cada vez mais necessária a constante revisão de certos padrões que se estabelecem na comunicação e que, infelizmente, ainda persistem em refletir certos comportamentos machistas da sociedade sobre o que é e o que não deve ser. O que só serve para reafirmar o debate da publicidade e propaganda acerca da responsabilidade que a sua função acarreta, tendo que ser um espaço que deva sobretudo promover uma constante reflexão sobre atitudes e formas de pensar, replicando nas páginas e nas telas a pluralidade do mundo que não só o seu público-alvo possa viver.

Diante a um público feminino cada vez mais unido, exigente e vigilante em torno de suas causas, as marcas ainda patinam quando se pergunta como é possível de definir uma boa comunicação ao seu consumidor.

Neste breve texto, buscamos pontuar como as duas principais marcas de sabão em pó, a Omo e a Ariel, apesar de rivais, se convergem na comunicação de seus produtos e por diferentes momentos, terem passado a apelar não mais somente para a eficiência de seus produtos, mas principalmente no conceito que eles podem carregar consigo.

A formação de estereótipos na figura da mulher dona de casa


A década de 1960 significou um ponto de grandes inflexões para a sociedade contemporânea, onde um mundo pós-guerra estabelecia o surgimento de uma geração de jovens inseridos na prosperidade material e tecnológica. Com isso, as pautas feministas ganhavam cada vez mais força, referentes ao acesso a métodos contraceptivos, a saúde preventiva, a proteção a violência doméstica, equiparação salarial, entre outros. É papel da propaganda sempre acompanhar tais movimentos sociais, propagando mensagens que seduzem, mas que também provoquem a reflexão em que consome.

E em relação a uma geração que se acostumou com papéis fixos onde, ao longo da história, as mulheres eram responsáveis pela educação dos filhos e pelo cuidado com a casa, ainda era bastante natural que marcas de sabão-em-pó, sobretudo mostrasse sua eficiência ilustrada pela figura da mulher. É como vemos nas duas peças abaixo, datadas das décadas de 50 e 60. A mulher (Fotografia 1), sorri, satisfeita com a qualidade do produto e enquanto na outra peça (Fotografia 2), os maridos se divertem e um se mostra surpreso pela “brancura” da camisa lavada com Omo.

Anos 50 - Fonte: Propaganda Históricas (2013)


Anos 60 - Fonte: Propagandas Históricas (2013)

Numa década em que as mulheres cada vez mais reivindicavam sua independência social, a P&G observando tais movimentos igualitários, refez totalmente a comunicação da Ariel em sua divisão europeia, lançando no mercado, em 1967, o primeiro sabão-em-pó com enzimas do mundo.

Lançado inicialmente na Inglaterra, Alemanha, Itália e México, o sabão contava com uma tecnologia revolucionária que prometia a remoção das manchas mais difíceis, logo, direcionado a um público feminino que podia até ter tempo disponível, mas que não desejava mais dedicar grande parte do seu dia a lavagem de roupas como antigamente, dando-lhe assim o tempo ao que verdadeiramente desejava.

Desenvolvido especialmente para ser utilizado em máquinas de lavar, sem uso complementar de alvejantes ou tão pouco de ter que deixar as roupas de molho na pré-lavagem, o novo sabão provou-se um grande sucesso ao atrelar em sua comunicação, a sensibilidade necessária a uma mulher que buscava a sua independência, cumprindo a promessa de tornar a limpeza das roupas mais prática para a mulher prática dos tempos atuais.

E se na Europa a Ariel reconhecia um forte movimento pela libertação feminina, no Brasil as conquistas eram mais lentas e graduais, com as conquistas do aborto seguro em 1940 e do trabalho sem a aprovação dos maridos em 1962. Evidentemente, após 1988 com a Constituinte e o marco da Lei Maria da Penha em 2006 tivemos grandes mudanças, mas a publicidade, tanto da Omo como da Ariel nessa década de (2000), tem uma grande parcela de responsabilidade na visão do seu público em relação a igualdade de gênero e na relação do sabão-em-pó, não mais só com a mulher, mas também com as experiências da infância e da vida adulta, respectivamente.

E foi numa clara reação a P&G e a Ariel, que em 2010 sacudiu o mercado com pioneira e bem-sucedida campanha “Descubra Ariel”, a Unilever se sentindo ameaçada pela primeira vez na liderança deste mercado no Brasil, em 2004, lançava pela Omo a campanha “Porque Se Sujar Faz Bem” (Fotografia 3) decidindo pelo reposicionamento da marca após 50 anos de notório sucesso. Optando por não se focar mais nos atributos de seu produto, isto é, na sua facilidade e eficiência, mas escolhendo priorizar a construção de um conceito, e no bem-estar que Omo poderia proporcionar no fortalecimento entre a relação de mães e filhos, dando-lhes o tempo juntos que realmente é necessário.

Como os cases se ligam com o emocional do consumidor

Com a mudança do paradigma que as propagandas dos produtos de limpeza - no caso do nosso estudo, o sabão-em-pó - ainda enfrenta, devido aos movimentos de libertação feminina germinados nos anos 60. A comunicação destas marcas, e porque não da publicidade em geral, foi obrigada a se reciclar para não tão somente comunicar o que o produto faz, mas sobretudo estudando como ele pode ser inserido na vida de seus consumidores. Como atesta um texto no próprio site institucional da Omo, justificando a importância da sua campanha.

Por esse motivo, [se] sujar faz bem e é recomendável, sobretudo quando a sujeira é a consequência de os seus filhos saírem para o mundo para se divertir, descobrindo a textura da areia do parquinho, a sensação de rebolar na grama ou abraçar uma árvore. É experimentando e explorando que os mais pequenos crescem saudáveis e conscientes da natureza e do ambiente que os rodeia. E é também esse aprendizado experiencial que contribui para o seu desenvolvimento físico e emocional. 
(OMO, 2018 <https://www.omo.com/br/>)
Primeiramente, vamos fazer um exercício simples de imaginação. Na saída da escola, após o recreio, a criança provavelmente estará com o uniforme sujo. Seja por graxa, lama, terra, ou mesmo suor, os pais normalmente têm o costume de educar seus filhos os questionando porque sua roupa está suja para talvez depois pensar em perguntar se o dia foi divertido. Então, claramente inspirada pela retórica Aristotélica, Omo entendeu que ao invés de dissuadir, acusar e censurar a sujeira, através dessa campanha ela buscou persuadir o cliente, defendendo e elogiando a sujeira, e ressaltando o seu benefício central na felicidade de poder brincar sem restrições e sem medo de se sujar.

Entre suas linhas, o case “Se Sujar Faz Bem” carrega consigo uma reflexão clara do século XXI e de um mundo globalizado onde as crianças ficam em frente a smartphones e tablets, perdendo contato com o mundo que as cerca. Para a Omo, com as décadas, a sujeira foi ligada a trabalho, e isso para as mães tem que ser evitado. A bem-sucedida campanha, relembra que o seu filho poder brincar a moda antiga, gera lembranças e bons momentos e isso é um bem para ele e para toda a família, e em relação a sujeira, tratarem isso como uma consequência natural desse processo. Sintetizando, é como se a Omo nos dissesse que se encarrega pela diversão de uma mãe com seu filho - ilustrada pela peça abaixo (Fotografia 3).


Medalha (2010) - Thelma Villas Boas / Neogama BBH

Abraçar as minorias e o “politicamente correto”, são preceitos indispensáveis do mundo globalizado e interconectado do século XXI. Através das redes sociais podemos conversar com alguém do outro lado do planeta, e em um mundo composto por pluralidades, é graças ao virtual que podemos conseguir nos identificar com uma pessoa completamente diferente em um ambiente distinto ao nosso, mas que tenha tido experiências semelhantes. E experiências e compartilhamento foram as palavras-chaves na campanha “Descubra Ariel”, para se inserir no mercado brasileiro.

As plataformas digitais revolucionaram o modo de fazer publicidade, se antes o consumidor era um mero participante contando com a televisão, o rádio e o jornal impresso como suportes de informação, com as redes sociais o mesmo consumidor passou a ser também um protagonista. Hoje, o feedback do público é simultâneo com a veiculação de qualquer campanha publicitária. Geradores de conteúdo, o movimento da comunicação é aceleradíssimo. E observar o crescimento dessas mudanças, que refletem no comportamento do público-alvo, foi preponderante para a Ariel inserir o seu produto nas gôndolas do mercado.


Fanpage da Ariel no Facebook divulgando a websérie "Lavando Roupa Suja"

Estrelando a atriz da Rede Globo, Fernanda Torres, e aproveitando da sua ligação recente com a personagem “Vani” da série “Os Normais” (2001-2003) - onde ao lado de seu noivo Rui (Luis Fernando Guimarães) protagonizava situações típicas de um casal brasileiro. A Ariel trouxe o antes inédito conceito de vlogueira, onde a atriz, através da fanpage da marca no Facebook, lia cartas de internautas contando os seus causos e fazendo perguntas sobre o uso correto do Ariel numa interação direta com a marca destilando comentários ácidos e bem-humorados, como: “Tem horas que pescoço de homem é igual roupa encharcada: dá vontade de torcer, mas não pode”. Em uma ação em que ao mesmo tempo em que a Ariel propagava seu produto e ouvia o seu consumidor, ela também construía uma relação de confiança, de amizade e, principalmente, de modernidade ao redor da marca, em comparação com a Omo.

Tais aspectos positivos das bem-sucedidas campanhas se devem a utilização correta das ferramentas disponíveis e do planejamento de marketing e comunicação. Tanto a Omo e a Ariel vão muito além da qualidade de seu sabão-em-pó, enxergando a mulher apenas como parte integrante de algo maior, seja família ou trabalho, e convergindo sua comunicação quando formos pensar em uma ligação emocional e demonstrando como é necessário acompanhar os movimentos sociais. E se a marca Omo usa a família para causar a ligação, notamos através deste breve artigo, que a Ariel se utilizou do humor e da extroversão para fazer com que o usuário interagisse com a marca tornando-a parte do seu dia-a-dia.

Considerações finais

A inserção do empoderamento feminino, e a luta pelos direitos iguais entre homens e mulheres no mundo moderno trouxeram uma obrigatoriedade de criar uma nova visão para a publicidade. E as marcas que usavam o estereótipo da mulher como a dona de casa, tiveram que evoluir juntamente com os movimentos sociais.

Ressignificando a visão do papel da mulher com a casa, as marcas de sabão em pó, a Omo e a Ariel, começaram a usar em suas propagandas opções mais extrovertidas, trazendo ainda a ideia da roupa suja, mas sem usufruir do estereótipo batido da mulher passiva e dona-de-casa. E em seus processos de evolução no trato com o consumidor, as duas marcas aderiram em suas campanhas, experiências com crianças e adultos (homens e mulheres) buscando inserir o produto no cotidiano da casa e da vida da mulher para, além de comunicar o que o produto faz, causar uma reflexão emocional sobre as atitudes e formas de pensar da sociedade.

A campanha da Omo “Se Sujar Faz Bem”, não ressaltou os atributos da marca, mas como o sabão-em-pó que cumprirá sua função, além de trazer a reflexão sobre o lugar da mulher e mãe numa atenção a beleza da infância e do aprendizado. Já a marca Ariel, trouxe campanhas voltadas para construir uma relação de confiança e modernidade com o consumidor, como a campanha "Descubra Ariel", que usou do humor para criar uma relação de confiança e de amizade com a mulher, trazendo histórias e comentários bem-humorados contendo críticas sobre a relação dos dois sexos.

Em comum, podemos avaliar que a mulher deixou de ter o papel de "quem lava as roupas" em comerciais e na publicidade em geral. As duas marcas passaram a enxergar a mulher não apenas como a dona de casa, mas como parte integrante do mundo moderno que é capaz de trabalhar e ter uma rotina assim como o homem; reforçando a visão do empoderamento sobre o lugar da mulher na sociedade e da luta pela igualdade de direitos com os homens. Um grande e importante detalhe que deve ser trabalhado dentro de cada casa, e na cabeça de cada marido ou companheiro.

Posicionamento esse que é fundamental para todo mercado, especialmente o da limpeza, mas que também ainda exige um trato cuidadoso para não atingir o público feminino de forma negativa ou aberta a interpretações. Mas se tratando da Omo e da Ariel, podemos ficar orgulhosos devido ao esforço das marcas em humanizar seus produtos, revendo o papel do sabão-em-pó como parte das lembranças. Essas mudanças citadas, não deixam de ser contínuas e é papel das marcas, agências e dos publicitários, apresentar novas campanhas cada vez mais inseridas dentro do mundo moderno em que a mulher não é mais aquela limitada ao lar.

Referências bibliográficas

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